Caros e caras,
Sei que a frase não é original (é de Shakespeare), mas expressa o meu sentimento atual, e o motivo pelo qual tenho me calado nos últimos dias. Já previa algunas reações mais exaltadas de antigos amigos ou amigas, ou de conhecidos mais recentes. Nos posts anteriores, de certa maneira preparei o terreno para, enfim, declarar minha posição, como afinal fiz, a respeito destas eleições presidenciais.
Declarei e declaro meu voto em José Serra. Há motivos para isso, para quem quiser escutar. Não pretendo convencer ninguém de minha posição. Não estou fazendo proselitismo, sobre o qual falei em meu último texto. Vou resumir os motivos que me levarão a votar em Serra.
Sempre tive simpatia pelo PSDB. Isto começou no Governo de Franco Montoro, um dos políticos mais íntegros que já tivemos. Muitos de vocês não se lembarão talvez dele, talvez sejam jovens demais para o terem conhecido. Não que eu o conhecesse pessoalmente, mas conhecia pessoas que trabalharam com ele ou para ele.
Certa vez, eu estava pedindo carona na USP, e para minha surpresa, parou uma limusine preta (ou pelo menos assim me pareceu, pois nunca havia visto um carro daquele tamanho). Abriu-se a porta e Paulo Sergio Pinheiro, então assessor do Governador Franco Montoro, ofereceu-me uma carona VIP. Eu não o cohecia ainda, a não ser de nome. Mais tarde, quando me formei em Filosofia, meu primeiro emprego foi como assessor editorial da Paz e Terra, indicado por Paulo Sergio Pinheiro. Trabalhei lá com Michael Hall e subordinado a Fernando Gasparian, ou melhor dizendo, a seu filho.
Permaneci um ano lá. No meio tempo, prestei concurso na UNESP e, em junho de 1988, fui contratado, iniciando minha carreira como professor universitário, junto ao Departamento de História na Faculdade de Ciências e Letras de Assis, onde permaneceria por 7 anos.
Para encurtar a história, fiz campanha por Montoro, votei em Fernando Henrique, para Prefeito, e depois para Senador. Na ocasião, escrevi uma carta a Fernando Henrique, falando de sua responsabilidade, pois caso não correspondensse às expectativias, corria-se o risco de provocar um desânimo no eleitorado, passando a sensação de que “as coisas mudam para permanecer as mesmas”, como disse o Princípe Fabrício, em O leopardo. Não decepcionou.
Depois disso, fiz campanha de boca de urna para o PT, fui fiscal do PT em eleições, votei em José Genoínio, José Dirceu, Mercadante e outros. Não votava em qualquer um do PT. Havia alguns de quem não gostava, e não preciso mencioná-los aqui.
Algo sempre me impediu de me filiar a um partido. Um sentimento de desconfiança em relação a mim mesmo. Costumava me declarar “groucho marxista”: não entraria para um clube que me aceitasse como sócio. Acho que foi bom como blague, ajudou-me a manter o senso crítico, porém, a indefinição também atrapalha, também impede que v. penetre em certos círculos mas profundamente. Hoje, revi essa atitude. Engajo-me em causas, acredito e defendo posições, até mesmo me filio a sociedades… Erasmo de Roterdã também dizia que jamais entraria para algo de que não pudesse se arrepender depois: um casamento, um partido ou uma igreja. Entrei para o primeiro, e me arrependi duas vezes! E me casei de novo! Então, é possível entrar, sair, rever posições, em suma, viver.
Quanto ao PT, além de ter participado de algumas campanhas, sempre fui “simpatizante”, mas, pelos motivos acima explicados, nunca me filiei. Certa vez, compareci a uma reunião de um diretório na Vila Madalena. Estava lá o Aloísio Mercadante. Senti-me hostilizado, considerado burguês, filhinho de papai, a partir de nada, já que ele não me conhecia. Pode ser que não tivesse se referindo a mim, mas não voltei mais.
Em 2002, fui à Venezuela portando na pasta um adesivo “Agora é Lula!”. Alguns venezuelanos disseram que eu estava maluco, que eu veria onde isso daria. Um taxista me falou da corrupção miúda, daquelas pessoas que nunca tiveram nada e que de repente se enriqueceram, compraram iates, joias etc. Não dei ouvidos. Na época, entre a burguesia venezuelana e os populares que apoiavam Chavez, fiquei com o segundos. Nessa época, quase me filiei novamente ao PT, mas a aliança com o PL despertou de novo minhas dúvidas: “Deixe eu esperar mais um pouco”.
Votei em Lula no primeiro mandato , mas não no segundo. Para mim já ficara evidente o aparelhamento do Estado, o inchaço da máquina pública e a corrupção miúda, ou graúda, o mensalão, os episódios de Santo André. Não poderia mais apoiar o PT.
Por esse motivo, voltei ao partido com o qual simpatizei desde o início, o PSDB, com todos os seus problemas. A cúpula é composta de intelectuais, de pessoas inteligentes. Serra citou Rawls em seu discurso de posse. Fernando Henrique é um sociólogo, conhece o Brasil e a história política deste país como poucos. Serra é enonomista, esteve exilado (e não fugido) no Chile, e depois teve de sair também do Chile, com a queda de Allende. José Serra pertence à esquerda, isto para mim não é passível de discussão.
Não precisaria dar essas satisfações, mas achei interessante contar um pouco de minha história política, de minha trajetória, desde as marchas na Praça da Sé, com 16 anos, fugindo da política e cantando “Caminhando e cantando…”, de Geraldo Vandré. Mas também sabendo evoluir, não ficando preso a uma imagem romântica de um passado congelado. A política é dinãmica, assim como a história. É preciso fazer análises concretas em política. Para terminar, cito Max Weber: “O diabo é velho; é preciso envelhecer para compreendê-lo”.!
Abs. a todos.
Luiz Paulo Rouanet